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Sou beirã. Nasci no campo. Lembro-me de estar todo o dia com a minha mãe, enquanto ela trabalhava (muito) em casa. O trabalho vinha ter com ela. Limitava-se a realizá-lo, nos interva-los, nas minhas sestas, à noite. Ajudava-a nas tarefas domésticas. A mim juntavam-se outros da minha idade. As brincadeira ficavam-se pelas tradicionais. Saltar à corda, o jogo do galo, as apanhadas, correr no meio do milho, bem mais alto do que nós. Inventávamos labirintos. Lembro-me de apanhar borboletas, a sério, lembro... e do cheiro dos malmequeres e do som das primeiras gotas da chuva a bater no vidro do quarto. Lembro-me de acordar e "sentir" a primavera. Lembro-me de tantas coisas dessas. E não sou mimada. Porque muitas vezes me assalta um pensamento parvo, numa espécie de auto-mentalização, e ridículo de que, se o Gui estivesse todo o dia, todos os dias comigo... seria mimado. Mentira, pura mentira. Então, porque é que não sou rica? Porque tenho de levar o meu filho, todos os dias, à escola? E é fantástica, mas, mesmo assim, porquê? Bolas. M****
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Detesto o final dos períodos lectivos. É nestas alturas em que o drama se instala com a ausência de tempo, com a falta de dinheiro, com a necessidade extrema de estar junto da família e não poder, de querer mais e sentir impotência, de saber que ou ganho o euromilhões ou nunca sairei da sepa torta. De querer evoluir profissionalmente e não poder (por vários motivos). De ver a minha profissão ser tão pouco valorizada. De querer tanto... e de estar forçosamente acomodada com o que tenho... e tenho muito, mas queria melhor. É pecado? Queria a minha família, um cão e um jardim, pequenino, para plantar flores e correr com o meu menino... queria ter uma varanda e poder esticar as pernas sem os olhares invasores dos vizinhos dos prédios da frente... queria comer laranjas colhidas na hora e fazer churrascos debaixo de um telheiro aos fins de semana e nas noites de calor. Ler um livro lá fora.
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É pecado?
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